O hóspede com 60 anos ou mais tende a pesquisar antes de escolher, valorizar o atendimento humano e permanecer fiel depois de estabelecer confiança com uma marca. Para Billy Nascimento, doutor em Neurofisiologia pela UERJ e CEO da Forebrain, esse comportamento não significa ausência de emoção, mas uma forma diferente de processar decisões.
A resposta emocional continua importante no envelhecimento. O cérebro maduro tende a reagir menos a informações negativas e a preservar a atenção sobre conteúdos positivos, fenômeno conhecido como efeito de positividade. Ao mesmo tempo, o circuito de recompensa fica menos reativo à novidade e à expectativa de ganho, reduzindo a força da compra por impulso.
Experiência, memória e confiança
O comportamento mais criterioso não surge de um córtex pré-frontal mais potente. Segundo Nascimento, velocidade de processamento e memória de trabalho declinam, enquanto décadas de compras, acertos e arrependimentos ajudam a formar atalhos de decisão. O consumidor maduro reconhece padrões de qualidade e filtra melhor aquilo que merece atenção.
A familiaridade também favorece a lealdade de marca. Outro elemento é a nostalgia: memórias marcantes costumam se formar entre os 10 e os 30 anos, período chamado de pico de reminiscência. Músicas, sabores, lugares e marcas dessa fase podem acessar com mais facilidade o cérebro maduro, além de estimular circuitos de recompensa e aumentar a disposição a pagar.
Para as empresas, a recomendação é testar produtos e campanhas com quem realmente compra, em vez de aplicar ao público mais velho resultados obtidos com amostras jovens. Clareza, boa legibilidade, ritmo menos acelerado, uma ideia central por peça e tempo para decidir aparecem como alternativas à pressão e ao excesso de opções.
Aplicações na hotelaria
No turismo, a viagem pode ser compreendida como uma compra de memórias futuras. Como o cérebro tende a guardar os picos emocionais e o fim da experiência, a hotelaria deve cuidar tanto dos momentos marcantes quanto do encerramento da jornada e do contato após a volta.
A antecipação também integra a experiência: o prazer da viagem começa antes do embarque, tornando a comunicação pré-estadia parte do produto. Música, sabores e aromas associados às memórias entre os 10 e os 30 anos podem ser usados em uma curadoria sensorial. O vínculo familiar é outro fator relevante, especialmente em viagens multigeracionais.
A hospitalidade voltada ao público 60+ não se resume a acessibilidade. Ela envolve novidade com segurança, autonomia e suporte discreto. Para Vanessa Costa, jornalista e consultora ESG, ouvir esse viajante em processos de materialidade pode ajudar o setor a compreender um consumidor atento à qualidade, consciente e fiel.








