ILHÉUS — Uma passagem profissional pelo Txai, na Bahia, despertou o desejo de voltar ao hotel não para trabalhar, mas para viver o lugar. A segunda visita foi feita com o marido, durante uma pausa para celebrar o aniversário de casamento, desacelerar e se reconectar.
Foram cinco dias e quatro noites. Nesse período, a hospedagem deixou de ser apenas um ponto de estadia e passou a funcionar como o próprio destino — uma das características mais importantes de um produto de hospitalidade.
A experiência começa antes da chegada
A percepção sobre o hotel começou ainda no aeroporto. Em Ilhéus, o Txai mantém um espaço próprio para receber os hóspedes. A equipe já aguardava a chegada, mesmo sabendo que o casal havia alugado um carro e seguiria por conta própria.
A presença não era necessária para resolver o transporte, mas expressava cuidado e antecipação. A equipe também sabia qual seria o bangalô e consultou a governança sobre a possibilidade de liberar o quarto antes do horário previsto. O hotel havia sido fechado para um casamento, e os hóspedes tinham saído naquela mesma manhã. Não houve promessa do que não poderia ser cumprido, mas havia uma operação preparada para receber.
O percurso até o empreendimento também fazia parte da experiência. A rodovia, com asfalto novo e boa sinalização, reforçou que um destino turístico depende ainda de aeroporto, acessos, mobilidade e infraestrutura.
Identidade construída com o território
Em 2025, o Txai foi reconhecido com uma Chave MICHELIN pelo segundo ano consecutivo. A distinção levou a uma reflexão sobre o que sustenta a relevância de um produto ao longo do tempo.
Arquitetura, tecnologia, spa, gastronomia e referências internacionais podem ser contratados ou incorporados. Identidade, cultura e pertencimento, porém, não chegam prontos. No hotel, havia profissionais com 26 anos de trajetória e outros que tinham chegado há poucos dias. As histórias eram diferentes, mas convergiam para a decisão de viver naquele lugar, na Bahia.
A cultura de uma marca também aparece nas conversas com quem faz parte da organização. Ela não está apenas no que a empresa escreve sobre si mesma, mas no que é percebido na rotina.
Por meio do Instituto Companheiros do Txai, há mais de duas décadas são desenvolvidas iniciativas de agricultura familiar e sustentável, educação socioambiental, geração de renda, artesanato e conservação da biodiversidade. Entre elas está a proteção das tartarugas marinhas que usam aquelas praias para desova.
Quando a comunidade participa da cadeia de fornecimento, tem sua cultura valorizada, aprende sobre a biodiversidade ou encontra uma possibilidade de carreira, passa a fazer parte da construção do empreendimento. A diferença está entre ocupar um território e pertencer a ele.
O que a Chave MICHELIN reconhece
A Chave MICHELIN reconhece uma experiência excepcional, mas não cria a história, as relações, a cultura, o território, as pessoas e a consistência que levaram um hotel até esse reconhecimento.
Para a hotelaria brasileira, a questão pode estar menos em construir produtos cada vez mais luxuosos e mais em desenvolver experiências singulares. O Brasil reúne biodiversidade, cultura, gastronomia, comunidades, histórias e modos de viver que não podem ser reproduzidos em outro lugar.
A vantagem pode estar em transformar aquilo que só existe aqui em hospitalidade de padrão internacional. Um hotel se torna destino quando cria razões para que o hóspede atravesse o mundo para viver justamente aquele lugar.
A Chave reconhece a excelência. O hóspede reconhece a verdade. A comunidade reconhece quando pertence. E o tempo reconhece aquilo que tem identidade.








