As imagens de uma infância em Sverdlovsk, de fábricas e de um bairro marcado pela transformação histórica aparecem em três poemas de Boris Rýji traduzidos do russo por Astier Basílio. Os textos percorrem lembranças da União Soviética, encontros cotidianos e a sensação de perda associada ao fim daquele período.
Rýji nasceu em 8 de setembro. Se estivesse vivo, completaria 52 anos. O poeta e geólogo suicidou-se em 2001, aos 26 anos.
Cidades e lembranças
Sverdlovsk, nome de Ekaterimburgo durante o período soviético, é apresentada como o lugar para onde o eu lírico deseja retornar mesmo depois da morte. A cidade aparece ligada aos amigos, às lembranças e aos perfis preservados na memória. Paris e Londres surgem como destinos distantes, em contraste com a cidade natal.
Outro ponto recorrente é Vtorchermet, bairro proletário onde Rýji viveu. Nos poemas, o local reúne pátio escolar, neve, policiais, dominó, vinho e a presença de uma fábrica. A Plastpolímer, localizada perto do bairro, é evocada junto do ruído das chaminés e de um assobio largo. A fábrica entrou em falência em 2021.
As cenas também passam por uma noite em que se liam versos de Iessiênin, enquanto alguém jogava dominó e bebia Porto. Em outra lembrança, uma criança compra sorvete e vai embora sem olhar para trás. Anos depois, o retorno encontra o espaço sem luz nem ar, mas ainda preserva o jardim.
Entre a memória e a morte
O ano de oitenta é associado à URSS, ao verão e às recordações de uma vida que ficou para trás. O passado reaparece junto de Iessiênin, do vinho, do dominó e dos escombros, enquanto o presente é atravessado pela pergunta sobre quem permaneceu.
No terceiro poema, uma cigana anuncia que pessoas daquela linhagem não poderiam viver naquele mundo. A cena mistura previsão, culpa e confronto com a morte dos outros. Ao final, enquanto toca uma música na feira, o céu começa a clarear.







