MANAUS — A qualidade do ar em Manaus foi classificada como péssima na manhã desta quarta-feira (23), em meio ao avanço das queimadas no Amazonas. Há duas semanas, moradores acordam com cheiro forte de fumaça e encontram a paisagem encoberta por uma camada cinza.
Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas registraram 291 µg/m³ de material particulado fino na capital. O índice é considerado bom entre 0 e 25 µg/m³ e péssimo quando ultrapassa 125 µg/m³.
A plataforma Selva, mantida pela universidade, acompanha a concentração de poluentes em diferentes pontos da cidade. Nos últimos dias, os sensores registraram até 280 µg/m³ de material particulado. Em setembro, a RedeAr apontou média diária acima de 30 µg/m³, o dobro do limite de 15 µg/m³ recomendado pela Organização Mundial da Saúde.
Fumaça e riscos à saúde
Moradores de Manaus passaram a usar máscaras para reduzir a exposição à fumaça. Entre os sintomas relatados estão ardência nos olhos, no nariz e na garganta.
As queimadas liberam poluentes como monóxido de carbono e dióxido de nitrogênio. A principal preocupação é o PM2,5, material particulado com diâmetro menor que 2,5 micrômetros. Quando inalado, ele pode chegar aos pulmões e à corrente sanguínea, permanecendo no corpo por meses após a exposição.
A pesquisadora Sonaira Silva, professora da Universidade Federal do Acre e integrante da Academia Brasileira de Ciências, relaciona a intensificação da fumaça às condições climáticas do El Niño. “O estado já mostra todos os sinais persistentes de falta de chuva, de aumento de temperatura consistente, com calor excessivo e prolongado”, afirmou.
O Amazonas registrou nesta terça-feira (22) a maior temperatura do ano, de 38,6°C, conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica prevê que o El Niño alcance um nível muito forte a partir deste mês.
Focos de queimadas
Entre 1º e 22 de setembro, o Amazonas contabilizou 3.240 focos de queimadas, segundo o Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O resultado representa aumento de 244% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram identificados 942 focos.
Os registros estão concentrados nas regiões norte, leste e sul do estado, incluindo Novo Aripuanã, Lábrea, Apuí, Careiro, Iranduba e Autazes. A mudança também alcançou a região metropolitana de Manaus, enquanto o fogo costuma se concentrar no sul do Amazonas, no chamado arco do desmatamento.
Em Itacoatiara, foram registrados 133 focos de calor entre 1 e 22 de setembro. No mesmo período de 2024, ao final do último El Niño, haviam sido 62, uma alta de 114%. Em Careiro Castanho, o número passou de 47 focos no pior ano do fenômeno para 76 agora, aumento de 61%.
Na comunidade São João, no km 35 da BR-319, moradores tentam controlar um incêndio há uma semana. “Não tem autoridade, não tem ninguém. Esse fogo tá estalando há semanas”, disse Lúcia Pereira, 58.
O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia informou que o enfraquecimento dos ventos, que normalmente levariam a fumaça para oeste, na direção do Peru, contribui para a permanência da fuligem em Manaus e nos municípios vizinhos. A previsão é de que o período de queimadas e fumaça continue pelos próximos meses.
Em 9 de setembro, o governador do Amazonas, Roberto Cidade, assinou decreto proibindo o uso de fogo no estado. O documento prevê a declaração de situação de emergência quando a concentração de material particulado superar 250 µg/m³ e permite recomendar a redução ou a suspensão temporária de atividades presenciais. A medida ainda não foi cumprida.







