A experiência de Carlos Rodrigues de Faria como linotipista e as lembranças dos primeiros anos de Goiânia são reunidas no livro póstumo Na linha bamba. A obra foi lançada em setembro deste ano, durante a Bienal do Livro de São Paulo, poucos meses depois da morte do autor, em maio deste ano, em Brasília, aos 92 anos.
O livro está à venda pela Editora Labrador e pela Amazon. O título faz referência ao equilíbrio necessário diante dos imprevistos da vida e à trajetória marcada pelo desafio de se manter “na linha bamba”.
Das gráficas às páginas do livro
A carreira de Faria nas artes gráficas começou ainda na adolescência, no jornal semanal O Estado de Goiaz. Na época, ele recebia textos datilografados, que podiam ser reportagens ou anúncios, e montava palavras e frases em caixas usadas na composição das páginas.
Mais tarde, na Folha de Goiaz, trabalhou com máquinas linotipo. O processo envolvia tipos móveis e chumbo, e uma das situações temidas pelos operadores era a chumbada, quando o metal fundido espirrava. A composição dos jornais acontecia à noite, para que os exemplares chegassem às bancas na madrugada seguinte.
Já em Brasília, Faria trabalhou como linotipista do Correio Braziliense. No livro, recorda a mudança da máquina Modelo 8 para uma 31 e a adaptação à nova capital da República, então marcada por desigualdades culturais e regionais, solidão e outros percalços.
Histórias de família e da capital goiana
A família de Carlos chegou a Goiânia em 1937. Entre as memórias registradas estão os dias no antigo bairro Botafogo, hoje Setor Leste Universitário, onde ele morava com os pais, irmãos e amigos perto do Córrego Botafogo.
Um episódio lembrado pelo autor ocorreu em uma véspera de Natal no final dos anos 30. Ele foi ao Palácio das Esmeraldas com outras crianças e recebeu um caminhãozinho de brinquedo e uma muda de roupa da primeira-dama de Goiás, dona Gercina, mulher do interventor Pedro Ludovico.
As recordações também incluem a entrada no mercado de trabalho, relatos sobre os pais e os irmãos, a história do pai de Carlos, que mantinha duas famílias, e a procura por um antepassado do século XVII perseguido pela Inquisição Portuguesa. A pesquisa genealógica foi conduzida por um sobrinho do pai de Carlos, que consultou bibliotecas e arquivos públicos, incluindo a biblioteca de Pirenópolis.
Um projeto construído ao longo dos anos
O interesse de Faria pela escrita levou alguns irmãos a incentivá-lo a reunir as histórias familiares. Os primeiros textos abordavam a infância, o início da vida profissional e episódios que também eram recontados em encontros de família.
Em 2013, depois de trabalhar em gráficas, Carlos imprimiu e encadernou alguns exemplares em casa e os entregou a parentes. O material só foi enviado a uma editora no final de 2025. “O resultado está aí, mas pena que ele morreu meses antes de o livro ficar pronto”, disse Adriano Faria, filho do autor.
O volume ainda recupera uma passagem da Coluna Prestes, em 1925, pela fazenda onde a família vivia antes da mudança para Goiânia. As histórias foram transmitidas entre avós, pais, filhos, sobrinhos e netos, preservando episódios da trajetória familiar de Carlos Rodrigues de Faria.








