Quatro réplicas de uma cadeira ligada ao acidente com Césio-137 foram instaladas em Goiânia pelo artista e professor Glauco Gonçalves. A intervenção urbana, chamada “áspera espera”, ocupa o Palácio das Esmeraldas, o Centro de Convenções de Goiânia, a Rua 57 e a Rua 26-A.
As peças reproduzem o modelo usado na Vigilância Sanitária em 1987, onde a cápsula radioativa permaneceu depois de ser levada por Maria Gabriela. A ação foi realizada nesta segunda-feira, 28, e propõe uma mudança na forma de contar o episódio, colocando a moradora no centro do momento em que a crise começou a ser enfrentada.
Uma nova data para a memória
Professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Glauco defende que o dia 28 de setembro seja incorporado ao calendário relacionado ao Césio-137. Para ele, essa data representa a iniciativa de Maria Gabriela, que identificou o problema e entregou a peça para análise.
A proposta também questiona o uso do dia 13 de setembro como marco inicial da tragédia. Na avaliação do artista, a data registra a descoberta da peça por dois catadores, mas não o abandono do equipamento radiológico pelos responsáveis pela clínica.
“Maria Gabriela precisa ser reconhecida como uma heroína dentro de uma tragédia”, afirmou Glauco. Segundo ele, a moradora integra o grupo das quatro primeiras vítimas fatais da contaminação, mas também teve papel decisivo para evitar que o número de atingidos aumentasse.
Quatro endereços e diferentes símbolos
O Centro de Convenções de Goiânia é apontado pelo artista como o ponto mais representativo da instalação. O local foi construído onde funcionava a clínica de radiologia abandonada. Para Glauco, levar a cadeira até ali reintroduz no espaço a lembrança do início do episódio.
No Palácio das Esmeraldas, a réplica foi posicionada diante da estátua de Pedro Ludovico Teixeira. A escolha cria uma relação entre a imagem do fundador da capital e a tragédia radiológica. Já a Rua 57 e a Rua 26-A são terrenos vazios associados à remoção de moradias atingidas na época.
A cadeira, a bolsa e a vasilha metálica usadas na composição procuram ocupar esses espaços com uma referência às pessoas que viveram ali e ainda aguardam uma história, uma placa ou uma homenagem, de acordo com o artista.
Cobrança por reconhecimento
A obra também chama atenção para a falta de memoriais e de homenagens formais aos trabalhadores envolvidos na contenção do episódio. Glauco cobra ainda assistência adequada às vítimas diretas e indiretas e reconhecimento público para Maria Gabriela, pelo estado de Goiás, pela prefeitura de Goiânia e pelo governo brasileiro.
Para o professor, a cadeira resume a ideia de uma espera que começou no interior da Vigilância Sanitária e permanece relacionada à memória do caso. A réplica não emite radiação, mas representa a cobrança por reconhecimento histórico ao longo de 39 anos.
A intervenção faz parte da produção visual de Glauco sobre o espaço urbano. Ele afirma que existem filmes e documentários sobre o Césio-137, mas considera menos frequentes as obras de artes visuais e as intervenções urbanas dedicadas ao tema.
O registro fotográfico das instalações foi feito por Tarcila e integra o projeto. Para Glauco, as imagens são necessárias para levar a mensagem da ação a pessoas que não encontrarem as cadeiras durante a circulação por Goiânia.







