Analistas da política mineira avaliam que Matheus Simões representa a continuidade da gestão de Romeu Zema no governo de Minas Gerais, com prioridade para a redução do papel do Estado, privatizações e uma relação marcada por conflitos com movimentos sociais e servidores públicos.
Simões assumiu o cargo de governador em 22 de março, depois que Zema renunciou para concorrer às eleições presidenciais. Antes de ocupar a vice-governadoria, Simões foi secretário-geral no primeiro mandato do ex-governador, entre 2020 e 2022. Ao longo de quase seis anos de atuação conjunta, participou da articulação da Reforma Administrativa e de propostas de desestatização de empresas públicas.
Para o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), a atual gestão mantém uma política de privatização e relações autoritárias com organizações sociais. O professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e analista político José Luiz Quadros também considera que o governo segue uma orientação de desmonte do Estado, sem medidas voltadas à maioria da população.
Privatizações e gestão de escolas
Ainda como vice-governador, Simões apresentou à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) um projeto que permite a privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). Ele também defendeu mudanças para retirar a obrigatoriedade de referendo popular na desestatização de empresas públicas, entre elas a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e a própria Copasa.
As propostas foram aprovadas pela ALMG sob pressão do governo estadual. Correia afirma que Simões também manifesta interesse em privatizar a Cemig e relaciona a gestão do governador à transferência de serviços educacionais para a iniciativa privada.
Poucos dias depois da posse de Simões, o governo de Minas leiloou a gestão de infraestrutura e serviços de 95 escolas públicas por 25 anos. A Parceria Público Privada (PPP) ficará sob responsabilidade da IG4 BTG Pactual Health Infra, gestora da Opy Health, que administra o Hospital Metropolitano Doutor Célio de Castro (HMDCC), em Belo Horizonte.
Trabalhadores da educação e comunidades escolares criticaram a medida. Denise Romano, coordenadora do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (SindUTE/MG), afirmou que a privatização demonstra falta de compromisso com políticas públicas, transparência e interesses populares.
Quadros associa a política adotada em Minas à defesa de um Estado mínimo e afirma que a lógica favorece a concentração de riqueza. Para ele, o partido Novo, ao qual Simões pertenceu, mantém uma concepção liberal do século 18 adaptada ao neoliberalismo.
Conflitos com servidores
A administração também enfrenta críticas relacionadas aos salários do funcionalismo. Profissionais da educação, saúde, meio ambiente e segurança pública relatam defasagens acumuladas. Para policiais civis, policiais penais e bombeiros, a diferença chega a 50%, segundo o texto. Na saúde, as perdas passam de 36%. Na educação, a defasagem entre 2019 e 2025 é de 41,83%, além de reclamações sobre o não cumprimento do piso nacional e pagamentos inferiores a um salário mínimo.
Mesmo diante das reivindicações, Simões ofereceu reajuste de 5,4% às categorias em uma de suas primeiras medidas no cargo. A proposta foi aprovada pela ALMG e sancionada pelo governador.
A deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT) acusa o grupo político de tentar apresentar a troca de governador como o início de uma nova administração, embora, na avaliação dela, a política continue a mesma. Denise Romano também critica os efeitos da gestão sobre os serviços públicos e os servidores responsáveis pelo atendimento à população.
Polêmicas anteriores
Antes de chegar ao Executivo estadual, Simões foi vereador em Belo Horizonte pelo partido Novo. Em 2019, durante uma discussão sobre o projeto Escola Sem Partido, ele se envolveu em um episódio com o então vereador Gilson Reis, do PCdoB. Reis caiu após um empurrão, e o caso levou à abertura de um pedido de cassação por quebra de decoro parlamentar.
Em janeiro deste ano, a deputada estadual Lud Falcão (Podemos) acusou Simões de ameaçar restringir o acesso dela ao Executivo caso o marido, Luís Eduardo Falcão, presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), não se desculpasse por críticas ao governo Zema.
O governador também entrou em conflito com o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) por insistir na abertura de escolas cívico-militares, mesmo após a suspensão da criação dessas instituições.
Para Rogério Correia e José Luiz Quadros, as medidas adotadas e o histórico de conflitos devem pesar na disputa eleitoral. Correia defende a retomada de políticas públicas e o fortalecimento dos serviços e servidores estaduais. Quadros afirma que um governo contrário a direitos constitucionais não deveria receber o voto popular.








