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Em Vila Boa, quinhentas oitavas compraram o perdão de um sacrilégio
Brasil

Em Vila Boa, quinhentas oitavas compraram o perdão de um sacrilégio

O padre Pedro Ferreira Brandão exigiu ouro de João Leite Ortiz e transformou a cobrança em uma das histórias dos primeiros tempos das minas dos Goyazes.

Nos primeiros tempos das minas dos Goyazes, quando o arraial de Sant’Ana ainda se formava entre as encostas e o rio Vermelho, o padre doutor Pedro Ferreira Brandão assumiu, no Ano da Graça de 1729, as funções de vigário da vara. Em uma comunidade movida pelo ouro, ele cuidava dos sacramentos e também dos registros paroquiais ligados a limites, posse e propriedade de sesmarias.

A atividade religiosa gerava emolumentos, espórtulas e conhecenças. Batizados, casamentos, enterros e outros serviços tinham custos. Foi nesse ambiente que surgiu o caso de João Leite Ortiz, homem ligado aos primeiros tempos dos descobrimentos e aos negócios das minas.

A acusação e a cobrança

Ortiz foi informado de que o vigário o acusava de sacrilégio, embora ninguém soubesse dizer qual teria sido a ofensa. Ao procurar Brandão, ouviu que poderia reparar o dano com uma prova concreta de arrependimento: quinhentas oitavas de ouro.

O minerador tentou argumentar que não tivera intenção de ofender a Deus e que a quantia parecia desproporcional. O padre, porém, mencionou a possibilidade de excomunhão. Naquele arraial, o afastamento da comunhão dos fiéis poderia afetar a vida social, os negócios e a relação do acusado com a comunidade.

Ortiz pagou. Depois, ao perguntar se estava reconciliado com Deus, comentou que se sentia mais leve — sobretudo nas algibeiras. A história se espalhou pelo arraial, e a falta de detalhes sobre o suposto sacrilégio só aumentou a curiosidade dos moradores.

A lavra na consciência

A cobrança passou a alimentar comentários sobre a prosperidade do vigário. Habitantes somavam os valores de batizados, casamentos, enterros, espórtulas e conhecenças, sem chegar a um total comum. Um velho minerador resumiu a fama de Brandão dizendo que ele havia encontrado uma lavra que não precisava de bateia: a consciência dos outros.

A lembrança das quinhentas oitavas também alterou o comportamento de parte da população. Um homem que vivia amancebado havia onze anos decidiu falar em casamento depois de saber do episódio. Quando a companheira perguntou se ele finalmente temia a Deus, respondeu que sempre tivera esse temor, mas só então conhecera os preços.

Em outra ocasião, durante um sermão contra a cobiça, alguém perguntou de que serviria todo o ouro acumulado diante do Altíssimo. A resposta cochichada foi que dependeria de quem cobrasse a entrada. O comentário provocou receio de que um novo sacrilégio fosse identificado.

Mais tarde, Ortiz voltou a questionar Brandão dentro da igreja. Quis saber se a falta de respeito mencionada pelo vigário poderia ser considerada sacrilégio e se ainda custaria quinhentas oitavas. A pergunta provocou risos entre os presentes. Quando o padre afirmou que havia coisas que dinheiro algum poderia pagar, Ortiz respondeu que as quinhentas oitavas já lhe haviam ensinado bastante teologia.

No fim da celebração, ele ainda perguntou se o riso merecia penitência. Brandão respondeu que, daquela vez, Deus perdoava. Ortiz quis saber se seria de graça e chamou o perdão de milagre antes de sair.

O arraial cresceu, ganhou feições de vila e se transformou em Vila Boa. Pedro Ferreira Brandão e João Leite Ortiz desapareceram com o passar do tempo, mas o episódio permaneceu. Mais de um século depois, José Martins Pereira de Alencastre registrou a história nos Anais da Província de Goyaz, tratando com desconfiança a quantia exigida pelo sacrilégio.

O destino do ouro não foi preservado. A memória do pagamento, porém, atravessou os anos: entre a alma de Ortiz e as quinhentas oitavas, foram as oitavas que entraram para a História.

Texto produzido pela Redação Trilha de Viagem com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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