Os afastamentos por Síndrome de Burnout cresceram 296% no Brasil entre 2023 e 2025. No mesmo intervalo, os benefícios concedidos por transtornos mentais aumentaram 79% e chegaram a 393.670 registros entre janeiro e novembro de 2025, segundo levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) com dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O custo previdenciário desses afastamentos passou de R$ 954 milhões em 2025.
A plataforma Predictus identificou 22.815 processos relacionados ao burnout entre janeiro de 2016 e abril de 2026. As ações envolveram 11.287 empresas e reuniram R$ 9,9 bilhões em valores de causa.
Mudanças nas regras para empresas
O governo federal anunciou a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que inclui o gerenciamento de riscos psicossociais e prevê punições para empresas com práticas que afetem a saúde mental dos trabalhadores. A medida deveria começar a valer em maio de 2025, mas foi adiada para maio deste ano após pressão de entidades empresariais.
A neuropsicóloga Fabiane Fagundes explica que burnout não é sinônimo de qualquer cansaço. A síndrome está ligada ao contexto profissional e pode envolver exaustão intensa, distanciamento emocional do trabalho e sensação de perda da capacidade profissional.
Para a especialista, orientações como descansar, fazer exercícios e organizar melhor o tempo não resolvem o problema quando continuam presentes metas inalcançáveis, jornadas extensas, assédio, falta de autonomia e mensagens fora do expediente. “O problema não é o trabalho. O problema é como se executa esse trabalho”, afirma.
Fabiane diferencia cansaço, estresse e burnout. O cansaço tende a passar com descanso, alimentação adequada e hidratação. Já o estresse é passageiro e termina quando o problema pontual é resolvido. Quando os sintomas persistem por 30 dias, seis meses ou um ano, ela considera que já existe adoecimento.
Entre os sinais citados estão irritabilidade, perda do prazer em atividades antes agradáveis, queda de produtividade e descontentamento com o próprio trabalho. A neuropsicóloga relaciona o quadro à permanência do organismo em um estado de ação, preocupação e ansiedade, sem equilíbrio com o relaxamento.
Responsabilidade compartilhada
Segundo Fabiane, empresas e trabalhadores têm responsabilidades no cuidado com a saúde mental. As organizações devem oferecer reconhecimento, valorização, feedback positivo, comunicação clara e lideranças preparadas. Ela também critica ambientes marcados por cobrança desumana de produtividade, críticas, feedback desvalorizante e pouca autonomia.
A especialista defende que contratações considerem, além do perfil técnico, a personalidade e a capacidade cognitiva. Dentro das empresas, recomenda atenção à comunicação, aos feedbacks e à clareza sobre as relações de trabalho.
Quando o burnout se instala, o tratamento pode envolver acompanhamento psiquiátrico, psicológico e mudança de estilo de vida. Fabiane afirma que o medicamento representa 25% do processo e que retornar ao mesmo ambiente pode levar a um novo adoecimento. Algumas pessoas recuperadas mudam de empresa ou de carreira por não tolerarem mais o contexto anterior.
Ela também orienta quem começa a perceber os sinais a procurar primeiro um psiquiatra para um check-up clínico. Se não houver questões clínicas, a pessoa pode ser encaminhada para psicoterapia. A profissional recomenda observar alimentação, sono, hidratação e relações, além das condições oferecidas pela empresa.
A atualização da NR-1 começou a ser discutida com a inclusão da saúde mental no ambiente de trabalho em 2024. As fiscalizações e multas, previstas para 2025, foram adiadas para 2026. Para Fabiane, a norma representa uma mudança de cultura e reforça que o cuidado deve envolver tanto o trabalhador quanto a organização.







