A incerteza em uma eleição disputada pode fazer o varejo brasileiro deixar de movimentar até R$ 62 bilhões no trimestre da votação. O cálculo é de um estudo do IBEVAR-FIA Business School, que cruzou duas décadas de dados de vendas apurados pelo IBGE com o desempenho da economia medido pelo IBC-Br, do Banco Central.
A análise identifica que o calendário eleitoral costuma favorecer o comércio. Entre agosto e outubro, o varejo ampliado cresceu, em média, 2,59% em anos de eleição, contra 0,48% nos demais períodos. Material de construção avançou 2,08%, ante 0,17%; móveis e eletrodomésticos, 2,06%, contra 1,47%; e o varejo restrito, ligado ao consumo cotidiano, subiu 1,49%, ante 0,69%.
Quando a disputa fica apertada
O comportamento mudou nas eleições de 2014 e 2022, decididas por menos de 5 pontos no segundo turno. Nesses casos, o varejo ampliado ficou 2,3 e 4,8 pontos abaixo do ritmo da própria economia no trimestre da votação. Em eleições sem disputa acirrada, a vantagem chegou a 3,9 pontos.
O estudo indica que o consumo não some, mas é postergado até a definição do resultado. Como o varejo ampliado movimenta cerca de R$ 4,3 trilhões por ano, ou R$ 1,08 trilhão por trimestre, cada ponto percentual perdido representa R$ 10,8 bilhões. Nas duas eleições com empate técnico, o setor ficou 5,8 pontos abaixo do padrão esperado, resultando em um freio de até R$ 62 bilhões.
Os bens de maior valor são os mais afetados. Veículos, motos e peças recuaram 12,8 pontos percentuais em relação ao padrão nas eleições acirradas. Móveis e eletrodomésticos caíram 11,2 pontos, enquanto material de construção teve queda de 7,4 pontos, com resultado isolado de 14,3 pontos negativos em 2022. O varejo restrito recuou 2,4 pontos.
Indicadores de 2026
O EPU-Brasil, índice de incerteza da política econômica, marcou 238 pontos no início do ano de eleição presidencial, acima dos 177 pontos de 2022 e dos 146 pontos de 2014. O estudo aponta que 2026 reúne condições observadas antes do maior recuo do varejo em anos eleitorais.
O segmento de material de construção já aparece 2,7 pontos atrás da economia no acumulado do ano. A confiança do consumidor, medida pela FGV, caiu pela quarta vez seguida, para 84,7 pontos. As expectativas recuaram 5,4 pontos, enquanto a avaliação da situação presente caiu 0,6 ponto.
Também há sinais de estímulo pré-eleitoral: os emplacamentos de veículos cresceram 16,9% em agosto, segundo a Fenabrave. Para Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, outro fator de pressão é a proximidade entre um eventual segundo turno, em domingo (25), a Black Friday, em sexta-feira (27), e o Natal.
Depois da eleição, o varejo ampliado costuma crescer 1,5% no trimestre novembro-janeiro, contra 0,9% nos anos sem disputa acirrada. Nas eleições de 2014 e 2022, porém, o avanço foi de apenas 0,1% e 0,5%, respectivamente. O estudo afirma que parte das vendas adiadas não retorna.







