O número de microempresas em Recuperação Judicial no Brasil passou de 513, no início de 2023, para 1.575 em junho de 2026. No mesmo mês, o país tinha 6.341 empresas nessa situação, de acordo com o Monitor RGF-Bizdoc.
O avanço ocorre em um cenário de aumento da inadimplência empresarial. A Serasa Experian registrou 9,2 milhões de empresas inadimplentes em julho, alta de 14,8% na comparação com o mesmo período do ano anterior. As dívidas somavam R$ 238,6 bilhões.
Juros e fluxo de caixa pressionam pequenos negócios
Para o advogado empresarial e especialista em Recuperação Judicial Eliseu Silveira, juros elevados por um período prolongado e estruturas financeiras mais frágeis ajudam a explicar o crescimento dos pedidos entre pequenos negócios. Segundo ele, empresas menores recorrem com frequência a crédito caro e de curto prazo para manter o capital de giro. Quando as margens diminuem, a dívida passa a consumir o caixa necessário para a operação.
A mudança na percepção dos empresários sobre a Recuperação Judicial também contribuiu para o aumento. Em 2024, micro e pequenas empresas registraram 1.676 pedidos, crescimento de 78,4% em relação a 2023. Eliseu afirmou que o mecanismo passou a ser visto por parte dos empresários como uma alternativa de reorganização, e não apenas como sinal de fracasso.
Entre os sinais de agravamento da situação financeira estão a contratação de um empréstimo para pagar uma dívida antiga, o atraso de impostos para quitar fornecedores ou bancos e a antecipação recorrente de recebíveis para fechar a folha. O caixa também exige atenção quando o faturamento se mantém, mas continua negativo.
Outro alerta é o comprometimento do patrimônio pessoal do empresário, com aportes frequentes de dinheiro próprio ou a oferta de garantias pessoais. A dificuldade para identificar o valor total devido e os credores também indica perda de controle sobre o endividamento.
Serviços e comércio lideram pedidos
Serviços e comércio concentraram a maior quantidade de pedidos de Recuperação Judicial em 2024. O setor de serviços teve 928 pedidos, enquanto o comércio registrou 575.
O agronegócio também aparece entre as atividades sob pressão, especialmente no Centro-Oeste. Em abril de 2025, o setor primário chegou a 64 pedidos. Entre os fatores associados ao cenário estão quebra de safra, redução no preço das commodities e aumento do peso do endividamento bancário em um ambiente de juros elevados.
O crédito pode ser útil quando tem finalidade definida e capacidade de gerar retorno, como em investimento produtivo, expansão planejada ou compra de estoque com expectativa concreta de giro. O risco aumenta quando o empréstimo é usado apenas para cobrir déficits operacionais, sem enfrentar a causa do problema.
“Uma pergunta simples que o empresário precisa fazer antes de contratar um empréstimo é como esse dinheiro vai gerar receita suficiente para pagar essa própria dívida”, disse Eliseu Silveira.
Antecipar o diagnóstico amplia alternativas
Na avaliação do advogado, esperar uma melhora no mês seguinte, renovar dívidas, oferecer garantias pessoais, vender patrimônio às pressas e adiar a busca por orientação estão entre os erros mais frequentes. Quando a ajuda é procurada apenas depois do fim do caixa, as possibilidades de negociação podem ser menores.
A recomendação é fazer um diagnóstico completo enquanto a empresa ainda estiver funcionando e tiver algum fôlego financeiro. A análise deve separar as dívidas operacionais das financeiras e priorizar o diálogo com os credores antes que a inadimplência se torne generalizada.
Entre as alternativas anteriores à Recuperação Judicial estão a renegociação estruturada, a mediação e a Recuperação Extrajudicial. Essas opções tendem a funcionar melhor quando a empresa ainda mantém operação, crédito e capacidade de negociação.
A reforma da Lei 11.101, em 2020, trouxe novas possibilidades de financiamento durante a recuperação e ampliou caminhos para o produtor rural. Eliseu também relacionou o aumento do uso do mecanismo ao amadurecimento da jurisprudência e à redução do estigma associado à recuperação.
“Recuperação é estratégia, e estratégia precisa ser pensada antes de a situação chegar ao limite”, afirmou o advogado.








