A inadimplência de pessoas físicas nas operações de crédito com recursos livres chegou a 8% em agosto, segundo o Banco Central (BC). O índice considera pagamentos atrasados por mais de 90 dias e superou os 7,8% registrados em julho, que até então representavam o maior patamar da série.
Considerando todas as operações de crédito para consumidores, a inadimplência também bateu recorde: passou de 5,8% para 6% entre julho e agosto. No mesmo período, a taxa média de juros da economia subiu 0,2 ponto percentual, para 32,3% ao ano, interrompendo uma sequência de três meses de queda mesmo com o ciclo de cortes na Selic.
Cartão concentra as maiores taxas
Os dados do BC indicam maior uso de modalidades de crédito mais caras, como o rotativo e o parcelado do cartão. O estoque de crédito do rotativo, utilizado quando o cliente não paga integralmente a fatura, cresceu 4,8% em agosto na comparação com julho entre as operações com recursos livres para pessoas físicas.
A taxa média de juros do rotativo alcançou 444,9% ao ano, alta mensal de 8,7 pontos percentuais. A inadimplência nessa modalidade passou de 65,5% para 66,2% no período, também o maior nível registrado.
No parcelado do cartão, os juros subiram de 189,3% em julho para 192,1% ao ano em agosto. Essa foi a segunda modalidade de crédito mais cara do mercado, conforme os dados apresentados pelo BC.
A taxa média de juros das operações com recursos livres aumentou 0,8 ponto, para 48,5% ao ano. Entre as operações contratadas por pessoas físicas, houve alta de 0,7 ponto, para 38,2% anuais.
A inadimplência dos contratos de pessoas físicas com recursos livres, que incluem o rotativo e o parcelado do cartão, avançou de 7,1% para 8%. No crédito pessoal consignado para trabalhadores do setor privado, o índice passou de 10% para 10,6%. Já no crédito pessoal não consignado, subiu de 10,6% para 11%.
No cheque especial, houve queda: o percentual recuou de 16,31% para 15,34% na mesma comparação.
Renegociação de dívidas
O avanço dos juros e da inadimplência ocorre enquanto o governo federal lança a terceira edição do Desenrola. O Desenrola Brasil 3.0 prevê a aquisição e a reestruturação de dívidas com atraso entre dois e quatro anos e meio.
O programa terá foco em dívidas de cartão de crédito, nas modalidades parcelada e rotativa, e em crédito pessoal sem consignação em folha de até R$ 10 mil. A estimativa é que até 15 milhões de pessoas sejam beneficiadas, com renegociação de até R$ 150 bilhões em dívidas. Duas outras edições haviam sido lançadas desde 2023.
Para a economista Juliana Inhasz, professora do Insper, a renda não tem sido suficiente para cobrir as despesas das famílias, apesar de o mercado de trabalho estar aquecido e a inflação seguir em queda. “Tem muita gente ocupada, mas a população na média recebe pouco”, afirmou.
Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, avaliou que a permanência da Selic em 15% ao ano, de junho de 2025 a março de 2026, pressionou o orçamento das famílias. Atualmente, a taxa básica de juros está em 13,75% ao ano.
Roberto Luis Troster, coordenador do Centro de Estudos Fipe do Endividamento das Empresas Brasileiras (Cefeb), afirmou que o endividamento cresce desde 2021 em diferentes cenários de juros, emprego e atividade econômica.
Endividamento das famílias
O BC informou que o endividamento das famílias chegou a 49,9% em julho, considerando a relação entre o saldo das dívidas e a renda acumulada em 12 meses. Houve alta mensal de 0,2 ponto e avanço de 1,1 ponto em 12 meses.
O comprometimento de renda ficou estável em 28,7% em julho na comparação com junho, mas aumentou 1,4 ponto no acumulado de 1 ano.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que medidas preventivas e de transparência são necessárias para ajudar consumidores a contratar linhas de crédito caras. A autoridade monetária também prometeu medidas para os próximos meses voltadas ao endividamento no cartão e no empréstimo não consignado.
O estoque de crédito no Sistema Financeiro Nacional (SFN) subiu 0,5% entre julho e agosto, para R$ 7,398 bilhões. O crescimento foi puxado pelas operações direcionadas, que avançaram 0,8%, e pelo saldo de crédito para pessoas físicas, que também aumentou 0,8%.







