Guerras, tarifas comerciais e a crise climática estão levando empresas brasileiras com atuação internacional a rever mercados, fornecedores e estratégias de produção. A competitividade continua ligada ao câmbio, ao preço e à qualidade, mas a diversificação de parceiros e a resistência das cadeias de suprimentos ganharam peso.
Nos últimos cinco anos, a pandemia de covid-19 expôs fragilidades no abastecimento. Depois, a invasão da Ucrânia pela Rússia alterou o comércio de energia, fertilizantes e grãos. A disputa comercial entre China e Estados Unidos deslocou fluxos de bens e serviços, enquanto a guerra no Irã e as medidas protecionistas adotadas pelo governo de Donald Trump ampliaram a instabilidade.
Livio Ribeiro, professor associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV), afirma que o ambiente internacional passou a exigir mais de empresas e governos. Para ele, as mudanças também reforçaram a concentração das exportações brasileiras em produtos básicos e na China.
Exportações e tarifas
As vendas brasileiras aos Estados Unidos recuaram 13%, de US$ 20 bilhões para US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre, na comparação com o mesmo período em 2025. Para a China, as exportações cresceram 12%, de US$ 52,1 bilhões para US$ 58,3 bilhões.
No mesmo período, as exportações totais do Brasil subiram 11,5%. O superávit comercial avançou 40,3% na comparação com igual período de 2025 e chegou a US$ 42,4 bilhões. A participação americana nas vendas brasileiras caiu de 12% em 2024 para 9,4% neste ano.
Em julho, os Estados Unidos anunciaram uma tarifa de 25% sobre cerca de três mil produtos e uma taxa adicional de 12,5%, sob a alegação de combate insuficiente ao trabalho forçado. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a taxa adicional alcança US$ 12,4 bilhões em vendas brasileiras, equivalentes a 29,4% das exportações do Brasil para o mercado americano e a 4.060 produtos.
Verônica Lazarini Cardoso, diretora da LCA Consultoria Econômica, avalia que algumas empresas podem priorizar o mercado interno, enquanto outras devem buscar novos parceiros. Um exemplo dessa reorganização está nas exportações do agronegócio para a Índia, que cresceram 47% no primeiro trimestre de 2026.
Cadeias mais diversificadas
A necessidade de reduzir riscos também mudou a gestão das cadeias de suprimentos. Márcio Silva, sócio de soluções de supply chain da Deloitte, diz que a pandemia acelerou processos que já estavam em curso e aumentou a complexidade das operações.
As empresas passaram a considerar mais estoque, maior disponibilidade e menor tempo de resposta. A reconfiguração de centros de distribuição e fábricas inclui a busca por alternativas de fornecimento além da China. Cadeias mais curtas ou descentralizadas também fazem parte desse movimento.
Silva afirma que o Brasil, considerado neutro nos conflitos em andamento, pode se tornar fornecedor estratégico para diferentes parceiros. Os efeitos, porém, variam entre os setores: bens de consumo, agroindústria, agro, eletrônicos e parte da indústria automotiva enfrentam impactos relacionados a fornecedores, preços e semicondutores.
A crise climática entrou de forma mais direta nas decisões empresariais. Marcos Pereira, sócio de supply chain da Deloitte, afirma que não basta avaliar o fornecedor direto. Também é necessário verificar o fornecedor desse fornecedor, sua localização e sua capacidade de resistir a interrupções, já que uma ruptura em qualquer ponto pode afetar toda a cadeia.
Para José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a concentração em produtos primários sustenta o superávit, mas acompanha a perda de espaço dos manufaturados. A entidade estima superávit de US$ 94 bilhões no ano. Em 2000, o déficit de manufaturados era de US$ 6 bilhões; neste ano, deve chegar a US$ 140 bilhões.







