O turismo brasileiro movimentou R$ 143,1 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 3,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Apesar do peso econômico, representantes do setor avaliam que a atividade ainda não ocupa espaço proporcional no debate eleitoral sobre o futuro do país.
A FecomercioSP informou que o resultado foi o maior para o primeiro semestre desde o início da série, em 2011. O transporte aéreo de passageiros avançou 5,7%, enquanto o alojamento cresceu 1,8%. Em junho, porém, a receita total subiu 2,1% na comparação anual, abaixo dos 4,2% registrados em maio.
No cenário internacional, o WTTC aponta que o turismo contribuiu com US$ 11,6 trilhões para o PIB mundial em 2025 e sustentou 366 milhões de empregos. No Brasil, a atividade movimentou cerca de R$ 240 bilhões no mesmo ano, esteve ligada a uma em cada 13 vagas de trabalho e recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais, segundo a Embratur.
O que está nos programas de governo
As propostas para a Presidência variam em abrangência. Ronaldo Caiado (PSD) apresenta uma Estratégia Nacional de Turismo 2035, com metas para visitantes internacionais, gastos, viagens domésticas, empregos e investimentos. O plano também prevê integração com infraestrutura, segurança, cultura e meio ambiente, além de mais conectividade aérea.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defende a continuidade do apoio a destinos regionais e da promoção do Brasil no exterior, com roteiros de gastronomia, arte, cultura e ecoturismo e valorização dos parques nacionais. Flávio Bolsonaro (PL) associa a expansão do setor à melhoria de transportes e segurança e propõe investimentos em aeroportos, rodovias e ferrovias, incluindo um Trem do Nordeste.
Romeu Zema (Novo) propõe concessões e parcerias privadas para parques, destinos e infraestrutura turística, além de capacitação, segurança e promoção baseada em inteligência de mercado. Augusto Cury (Avante) cita turismo rural, polos comerciais nas rodovias e participação em feiras internacionais. O programa de Renan Santos (Missão) não apresenta propostas para o setor.
Planejamento para além de um mandato
Fábio Godinho, conselheiro empresarial e ex-CEO da CVC, da Webjet Linhas Aéreas e do Grupo Wish, defende uma política organizada em cinco frentes: infraestrutura e segurança nos destinos, portos e cruzeiros, conectividade aérea e promoção internacional. Para ele, ações isoladas têm alcance limitado sem coordenação entre poder público e iniciativa privada.
Marcelo Linhares, cofundador e CEO da Onfly, aponta que a troca de ministros e a falta de continuidade dificultam a execução das propostas. Godinho afirma que, desde a criação do Ministério do Turismo, há 23 anos, 22 pessoas passaram pelo comando da pasta, entre titulares e interinos.
Orlando Souza, presidente executivo do FOHB, defende que o turismo seja tratado como parte da estratégia nacional, e não apenas como atribuição de um ministério. Toni Sando, presidente da Unedestinos e CEO do Visite SP Convention Bureau, pede uma agenda transversal, com metas mensuráveis e responsabilidades divididas entre ministérios e órgãos públicos.
Thiago Borges, presidente da Resorts Brasil, relaciona a competitividade dos destinos a infraestrutura, conectividade aérea, segurança, formação profissional, crédito e tributação. Ele defende uma agenda nacional com metas, responsáveis e indicadores, acompanhada durante o mandato.
Articulação do setor e demandas ao Congresso
Godinho afirma que 48 entidades privadas têm assento no Conselho Nacional de Turismo, mas avalia que falta uma instância capaz de reunir as demandas de toda a cadeia. Como alternativa, propõe uma confederação nacional do turismo que preserve a atuação específica das associações existentes.
O movimento Vamos com Eventos e Turismo, formado por Abrape, Resorts Brasil, Adibra, Sindepat e FOHB, preparou uma carta com oito prioridades para candidatos à Câmara dos Deputados e ao Senado. O documento trata de impostos e ambiente empresarial, relações de trabalho e formalização, atualização das regras, políticas de meia-entrada e gratuidades, crédito, segurança jurídica, viagens dentro do país e conectividade, além de estrutura turística.
A GBTA projeta crescimento de 13,8% para as viagens corporativas em 2026, com gastos estimados em US$ 35,8 bilhões. O valor se refere às viagens de negócios ao longo do ano e não deve ser somado ao faturamento semestral do turismo nacional, porque os indicadores têm períodos e metodologias diferentes.
Para os representantes ouvidos, o próximo governo terá de mostrar sua prioridade para o turismo em decisões sobre transporte, segurança, formação profissional, tributação e investimentos. A cobrança é por uma política de médio e longo prazo, capaz de atravessar ministérios, mandatos e partidos.








