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Um romance e um atentado mudaram o debate sobre a França
Brasil

Um romance e um atentado mudaram o debate sobre a França

Debate em Goiânia relacionou Houellebecq, Carrère e Hemingway à crise de identidade, religião e liberdade na França.

Em 7 de janeiro de 2015, a França viveu uma coincidência que passou a marcar a leitura de sua própria crise: o romance “Submissão”, de Michel Houellebecq, chegou às livrarias no mesmo dia em que homens armados atacaram a redação da revista “Charlie Hebdo” e mataram doze pessoas.

A relação entre literatura, terrorismo e identidade francesa foi discutida no projeto “Paris é uma festa!”, realizado dentro do Circuito Literário do Sesc-Goiás. O escritor Adalberto de Queiroz participou do encontro ao lado de Martim Vasques da Cunha e Tainá Côrrea, com mediação de Ademir Luiz.

O futuro imaginado por Houellebecq

Publicado pela Alfaguara, com 256 páginas e tradução de Rosa Freire D’Aguiar, “Submissão” apresenta uma distopia em que a França de um futuro próximo se entrega a uma nova ordem religiosa e política. No mesmo dia, o ataque ao “Charlie Hebdo” transformou em realidade um cenário de violência ligado à intolerância religiosa.

Na avaliação apresentada no debate, depois de 2015 temas como identidade, religião, imigração e liberdade de expressão passaram a ser vistos como sinais de uma questão mais ampla: a dificuldade de uma sociedade acreditar na própria continuidade.

Marcel Gauchet formulou o problema a partir da relação entre comunidade e transcendência. Alain Finkielkraut, por sua vez, questionou como uma cultura pode preservar seu patrimônio simbólico quando a transmissão entre gerações se enfraquece.

Gauchet também sustenta que a retirada da transcendência não eliminou sua força: parte da intensidade antes associada à religião teria migrado para a liberdade e para a soberania popular. Nesse processo, a França republicana teria ficado sem um adversário equivalente à autoridade metafísica contra a qual se organizou.

A tradição francesa de contestar reis, bispos e padres ajudou a formar o direito de rir até do sagrado. O problema apontado no encontro é que esse direito passou a circular instantaneamente em um mundo no qual os leitores não compartilham necessariamente os mesmos pressupostos.

Da Paris de Hemingway ao debate atual

A discussão também voltou ao imaginário de Ernest Hemingway. Em 1926, o escritor publicou “O Sol Também se Levanta”, associado à ideia de uma geração marcada pela guerra. A frase atribuída a Gertrude Stein — “Vocês são todos uma geração perdida” — tornou-se um dos símbolos desse período.

Hemingway, Fitzgerald, Dos Passos, e. e. cummings e Stein fizeram parte da geração de escritores que encontrou em Paris do pós-guerra cafés, livrarias, música, champanhe e liberdade para beber, amar, escrever e errar. Décadas depois, Hemingway reuniu essas lembranças em “Paris é uma Festa”, concluído no fim da vida e publicado por sua viúva três anos depois de sua morte.

A pergunta levantada por Queiroz é se a cidade ainda consegue oferecer esse tipo de acolhimento ou se passou a procurar um sentido que considera perdido. A reflexão inclui a antiga relação entre a França e o cristianismo. O título de “filha primogênita da Igreja” remonta à conversão de Clóvis, influenciada pela rainha Santa Clotilde, após uma promessa feita na batalha de Tolbiac, cerca de 496 d.C. Na ocasião, aproximadamente 3 mil guerreiros francos também receberam o batismo.

Em 1980, no aeroporto de Le Bourget, o papa João Paulo II retomou essa imagem ao perguntar à França o que ela havia feito de seu batismo.

Houellebecq e Carrère em lados diferentes

Martim Vasques da Cunha apresentou leituras de Houellebecq e Emmanuel Carrère, especialmente de “V13”. Na síntese feita por ele, Houellebecq aparece como um autor profético, enquanto Carrère atua como cronista dos fatos.

“Submissão” teria deixado de ser apenas uma distopia literária por antecipar a lógica de avanço e radicalização observada em setores extremistas da Europa. A ressalva destacada no debate foi que nem todos escolhem, nas palavras de Carrère em “V13”, a “loucura em nome de Deus”.

Em “V13”, Carrère acompanha o julgamento dos acusados pelos atentados de 2015 contra o “Charlie Hebdo”, o Bataclan e os arredores do Stade de France. O livro registra o esforço da Justiça francesa para dar forma jurídica ao trauma.

O debate também abordou Éric Zemmour e seu livro “O Suicídio Francês”, além das ideias de Jean-Michel Maulpoix sobre o azul, o horizonte e a permanência de uma busca pelo sagrado. Em “Une histoire de bleu”, de 1992, e “L’Instinct de ciel”, de 2000, reunidos depois em um único volume, o poeta associa esse desejo ao céu, ao amor e ao que não pode ser alcançado.

A conclusão apresentada foi que a literatura não precisa prever o futuro. Sua tarefa pode ser perceber antes o tremor de uma sociedade e dar nome a ele antes que se transforme apenas em uma manchete.

Texto produzido pela Redação Trilha de Viagem com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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