Em Santa Rita do Bugre, Nhô Quincas dizia manter duas devoções: a da Matriz e a da venda de Siô Anselmo. Dona Benvinda conhecia bem essa divisão e, no domingo de festa religiosa, tentou impedir que o marido se desviasse do caminho da igreja.
A missa cantada reunia os moradores, com os sinos chamando o povo, as irmandades ocupadas com suas tarefas e a movimentação das quitandas próximas. Quincas recebeu a ordem de seguir direto para a Matriz e garantiu que faria isso. No trajeto, porém, encontrou a venda aberta e conhecidos junto ao balcão.
Siô Anselmo ofereceu uma dose. Quincas aceitou. A segunda foi apresentada como a última, mas a promessa não se confirmou. O homem que tinha saído para a celebração chegou à igreja quando a missa já estava adiantada. Ao entrar, tropeçou no degrau e se apoiou na coluna da porta, tentando manter a compostura diante dos olhares.
A devoção dentro da igreja
Sentado ao lado de Benvinda, Quincas passou a acompanhar a celebração à sua maneira. Disse que o banco se mexia, embora a mulher afirmasse que estava quieto. Durante o sermão, ouviu o padre falar sobre tentações, fraquezas e ocasiões de pecado. A recomendação para que os fiéis fugissem das tentações provocou uma observação do marido: “O difícil é quando a tentação fica bem no caminho de casa.”
Na oração do Pai-Nosso, acompanhou as palavras com entusiasmo. Depois, recebeu a Comunhão e voltou ao banco com ar compenetrado. Pouco depois, comentou que o padre havia lhe dado um pão sem gosto. Benvinda explicou que era a hóstia consagrada, mas Quincas respondeu que esperava algo com mais sustança.
A paz depois da bênção
Quando a missa terminou, o padre disse aos fiéis que fossem em paz. No adro, Quincas perguntou à mulher onde ficava essa paz. Em seguida, encontrou Siô Anselmo e recusou o primeiro convite, dizendo: “Hoje não.” Caminhou alguns passos, voltou-se e corrigiu a resposta: ainda era cedo.
Benvinda seguiu para casa sem discutir. Mais tarde, o marido contou que havia assistido à missa, escutado o sermão, rezado o Pai-Nosso e recebido a Comunhão. Quando ela perguntou por que ele precisava agradecer na venda, Quincas explicou que o padre mandara todos seguirem em paz e que aquele ambiente lhe trazia paz.
Assim, Nhô Quincas ficou conhecido em Vila Boa como um homem religioso que não faltava à missa, rezava o Pai-Nosso e continuava sua devoção na venda de Siô Anselmo depois da bênção. Para ele, tudo era pela salvação da alma — que, aparentemente, não tinha pressa.







