O plano de governo de Cleitinho (Republicanos) para Minas Gerais é descrito pela cientista social e jornalista Jaqueline Morelo como uma proposta marcada pelo voluntarismo político, pela falta de dados e pela reapresentação de políticas já adotadas no estado. O documento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o lema “O Povo Primeiro!”.
Na avaliação da autora, o programa simplifica problemas complexos ao sugerir que a redução de privilégios, cargos comissionados e estruturas políticas permitiria ampliar serviços públicos sem afetar carreiras ou programas sociais. O plano também promete fazer “mais com menos”, mas não detalha como enfrentaria despesas obrigatórias, como folha de pagamento e previdência.
Morelo afirma que faltam indicadores iniciais, dados sobre infraestrutura e índices de desempenho educacional capazes de estabelecer um ponto de partida para as ações propostas. Por isso, iniciativas como a recuperação de leitos e a recomposição da aprendizagem aparecem, segundo a análise, sem delimitação concreta dos problemas que pretendem enfrentar.
Propostas apresentadas como novidade
A autora também questiona o caráter inovador de medidas incluídas no programa. A criação de uma Sala de Monitoramento da Gestão e a adoção de indicadores de desempenho são associadas ao Choque de Gestão dos governos de Aécio Neves e Anastasia, ambos do PSDB.
A proposta de alfabetização na idade certa e de apoio técnico aos municípios é relacionada ao Programa de Intervenção Pedagógica, do governo Anastasia. Já os Fóruns Regionais de Gestão Pública e o Observatório das Igualdades são apresentados como semelhantes a iniciativas do governo de Fernando Pimentel (PT).
Morelo ainda aponta que a expansão da REDESIM + Livre, o Orçamento de Base-Zero e o Plantão Digital da Polícia Civil já integram políticas da gestão de Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD). Para a autora, o plano não informa quais resultados dessas experiências devem ser preservados nem como pretende corrigir problemas de execução, financiamento e continuidade.
Limites fiscais e renúncias
A análise usa como referência o relatório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais sobre a gestão e as contas do governo estadual no exercício de 2025. O documento é citado para discutir a sustentabilidade das promessas de Cleitinho e do candidato a vice, Luís Eduardo Falcão (PSD).
O Executivo ficou acima do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal, de 46,55% da Receita Corrente Líquida, nos três quadrimestres de 2025. Os percentuais registrados foram 48,80% no 1º quadrimestre, 48,52% no 2º e 48,22% no 3º.
Entre 2021 e 2025, o pagamento de férias-prêmio convertidas em dinheiro acumulou mais de R$ 1,33 bilhão. Na avaliação da autora, esse cenário dificulta conciliar recomposição salarial, ampliação de equipes e novos concursos apenas com a economia obtida pela redução de cargos comissionados.
O plano também propõe revisar renúncias fiscais e renegociar a dívida estadual. Entre 2021 e 2025, as renúncias chegaram a R$ 25 bilhões, com crescimento real de 37,3%. Em 2025, os incentivos equivaleram a 29,2% da arrecadação de ICMS e a 21,5% da Receita Tributária estadual.
O estado ainda registrou déficit nominal de R$ 18,85 bilhões, diante de uma meta de R$ 10,92 bilhões prevista para 2025. Para Morelo, a proposta de revisão dos benefícios fiscais é vaga por não estabelecer critérios objetivos para manter ou retirar incentivos.
Participação regional e arrecadação
O programa promete regionalizar a gestão e valorizar os municípios. A autora, porém, relaciona essa diretriz à concentração de despesas na Região Intermediária de Belo Horizonte e à baixa execução de demandas apresentadas em processos participativos.
Das 30 ações orçamentárias voltadas a essas demandas em 2025, apenas 7 tiveram empenho. Foram executados 22,40% dos recursos autorizados: R$ 5,58 milhões de um total de R$ 24,92 milhões.
A análise também critica a previsão de financiar investimentos diretamente pelo Tesouro e rejeitar concessões rodoviárias. Segundo Morelo, 84,23% dos investimentos das estatais estaduais dependem da liquidez de empresas como Cemig e Copasa, além de recursos temporários do Acordo do Rio Doce e de royalties minerários.
Outra proposta questionada é a adoção de IPVA progressivo, com isenção para veículos populares. O plano não esclarece como compensaria a perda de arrecadação em um cenário de déficit estimado na Lei Orçamentária Anual em R$ 8,59 bilhões e de Restos a Pagar acima de R$ 9,2 bilhões.
Para a autora, a medida também pode afetar os municípios, que compartilham a receita do imposto. Ela conclui que o programa combina promessa de expansão dos serviços públicos com pouca explicação sobre aumento de receitas, restrições legais e financiamento das ações.







