A descoberta de indícios de petróleo no poço Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, aumentou a expectativa de que o Brasil consiga repor reservas e evitar a queda da produção prevista para a próxima década. O resultado foi anunciado pela Petrobras em meados de agosto e ainda depende da confirmação dos volumes encontrados e da viabilidade comercial da área.
O poço está no bloco FZA-M-59, em águas ultraprofundas, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá. A bacia da Foz do Amazonas é uma das cinco que formam a Margem Equatorial, ao lado das bacias do Pará-Maranhão, de Barreirinhas, do Ceará e Potiguar.
Demanda internacional e produção brasileira
A Agência Internacional de Energia (AIE) projeta que, no Cenário de Políticas Atuais, a demanda mundial por petróleo chegará a 113 milhões de barris por dia até 2050. Atualmente, o consumo está entre 102 milhões e 104 milhões de barris diários. O aumento seria impulsionado por economias em desenvolvimento, que usam o combustível no transporte rodoviário, na aviação e como matéria-prima para a indústria petroquímica.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) estima uma demanda de cerca de 106 milhões de barris por dia neste ano e prevê 124,1 milhões em 2050. Para 2030, a entidade calcula 113,3 milhões de barris diários. A oferta de combustíveis líquidos de produtores de fora da Opep e de países aliados pode crescer cerca de 4,1 milhões de barris por dia, com liderança de Brasil, Catar, Argentina e Canadá.
Para Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), a descoberta reforça a possibilidade de aumento da produção nacional e de reposição estratégica das reservas. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) calcula que a extração brasileira, principalmente no pré-sal, alcance o pico em 2032 e comece a cair em meados da década.
A Petrobras prevê investimentos de US$ 2,5 bilhões na Margem Equatorial nos próximos cinco anos, com a perfuração de 15 poços. A estatal estima picos de produção de 2,7 milhões de barris diários de óleo em 2028 e de 3,4 milhões de barris de óleo equivalente por dia em 2028 e 2029. Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Brasil produziu 5,8 milhões de boe por dia em julho. As áreas operadas pela Petrobras, sozinha ou em consórcio, representaram 87,27% desse total.
Licenças e áreas em disputa
Em 3 de setembro, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou a perfuração de outros três poços próximos ao Morpho. A licença veio após um pedido apresentado pela Petrobras depois da descoberta. A permissão para iniciar a pesquisa exploratória no poço pioneiro do bloco FZA-M-59 havia sido emitida em outubro do ano passado, após um processo com exigências do Ibama.
A área também desperta interesse de outras empresas. No 5º Ciclo de Oferta Permanente de Concessão realizado pela ANP em 2025, Petrobras, Exxon, Chevron e CNPC arremataram 19 blocos na bacia da Foz do Amazonas. Petrobras e Exxon ficaram com dez blocos, em parceria e com divisão igual da operação. Chevron e CNPC ganharam outros nove.
Em junho, a ANP indicou 86 blocos da Margem Equatorial para uma lista de áreas em estudo para possíveis futuros ciclos de Oferta Permanente de Concessão. Desse total, 25 ficam na bacia da Foz do Amazonas, 36 na bacia do Pará-Maranhão e 25 na bacia de Barreirinhas.
A Shell Brasil acompanha os desdobramentos, mas concentra sua exploração nas bacias de Santos, no pré-sal, e de Pelotas, na costa da região Sul. A empresa participa de 29 blocos em Pelotas, adquiridos em 2023. Em 26 deles, a Petrobras é operadora; nos outros três, também operados pela estatal, a CNOOC participa como sócia.
Na Margem Equatorial, a Shell opera dez blocos na bacia de Barreirinhas, que aguardam licenciamento ambiental, e um na bacia Potiguar. A empresa informou que a aquisição e a análise de dados sísmicos na bacia de Pelotas podem continuar até 2028.
Riscos ambientais e transição energética
A exploração na Foz do Amazonas enfrenta oposição de organizações ambientais por causa da sensibilidade ecológica da região. O Greenpeace Brasil afirma que a área abriga o maior corredor de manguezais do mundo, o sistema de recifes da Amazônia e territórios de indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Mariana Andrade, coordenadora da frente de oceanos do Greenpeace Brasil, declarou: “Explorar petróleo ali traz riscos à biodiversidade e a quem depende da saúde desse ambiente para viver, além de agravar a crise climática”. A organização também avalia que novas licenças podem levar a operações simultâneas de diferentes empresas em uma área considerada sensível.
Alexandre Szklo, professor do programa de planejamento energético da Coppe/UFRJ, observa que o uso não energético do petróleo tende a crescer. Hoje, cerca de 14% do volume refinado já é destinado a esse tipo de consumo, que inclui a produção petroquímica. A nafta, subproduto do refino, é usada na fabricação de gasolina e como matéria-prima para setores como plásticos, têxteis e borracha.
Segundo Szklo, gasolina, diesel e querosene de aviação enfrentam a concorrência de alternativas energéticas em ritmos diferentes. A existência de navios e aviões com longa vida útil e a falta de alternativas na escala necessária também contribuem para a permanência do petróleo na matriz energética.
Um cenário desenvolvido pela Coppe, compatível com aumento de 1,7ºC na temperatura do planeta, aponta que demanda e oferta globais de petróleo podem chegar a cerca de 40 milhões de barris diários em 2050. O volume atenderia setores ainda não descarbonizados.
Para Edmar de Almeida, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, a Margem Equatorial pode se tornar um “novo pré-sal”. Ele afirma que a confirmação do potencial da região pode estimular outras petroleiras a desenvolver projetos, embora a obtenção de licenças ambientais e a resistência de organizações ambientalistas continuem entre os obstáculos.







