A inteligência artificial começa a transformar a distribuição no aluguel de curta temporada, conhecido como STR. Assistentes conversacionais, buscadores baseados em IA e agentes autônomos podem passar a pesquisar, comparar e até concluir reservas, mudando o papel de plataformas como Airbnb e Booking.com na jornada do hóspede.
A disputa deixa de se concentrar apenas no canal em que a compra é finalizada. Também ganha peso a capacidade de influenciar a decisão do viajante, interpretar suas preferências e apresentar opções compatíveis com o que ele procura.
Dados e integração entram no centro da estratégia
Para Gabriel Fumagalli, CEO da Xtay, as OTAs ainda controlam grande parte da jornada de compra no STR. Atualmente, o operador paga comissões de 15 a 20% pelo acesso à vitrine em que o hóspede pesquisa, compara e escolhe uma hospedagem. Com a IA, essa etapa pode migrar parcialmente para uma camada de recomendação capaz de interpretar pedidos em linguagem natural.
As plataformas, porém, não necessariamente perderão todas as funções. Inventário, pagamentos e garantias podem continuar sob responsabilidade das OTAs, enquanto a influência sobre a escolha passa para os sistemas responsáveis por fazer recomendações.
Antes de adotar novas ferramentas, Fumagalli defende que os operadores organizem a infraestrutura tecnológica. Isso envolve dados próprios bem estruturados, integração por API, precificação dinâmica e conteúdo preparado para ser interpretado por máquinas. “Sem essa base, qualquer iniciativa de IA vira fachada”, afirma o executivo.
A orientação não é abandonar as OTAs. A venda direta pode ser desenvolvida ao mesmo tempo em que os operadores se preparam para novos canais. Nesse cenário, a presença digital precisa ser consistente e os dados devem estar disponíveis em formatos que facilitem a leitura pelos sistemas de IA. Avaliações, menções, conteúdo e reputação também podem pesar nas recomendações feitas aos viajantes.
Para empreendimentos menores, a tecnologia pode ampliar o acesso à distribuição caso os dados estejam organizados e os sistemas sejam conectados. Empresas com maior volume de informações, por sua vez, podem usar essa base para aperfeiçoar modelos, preços e personalização. Na avaliação de Fumagalli, a vantagem não depende apenas do tamanho da operação, mas das escolhas tecnológicas feitas por ela.
Na Xtay, a IA já aparece em atividades como precificação dinâmica, atendimento ao hóspede, verificação de identidade no check-in digital, produção de criativos, análise de dados e elaboração de pautas. A empresa também desenvolveu uma camada própria para integrar diferentes tecnologias e evitar que cada aplicação funcione de maneira isolada.
Airbnb amplia aplicações dentro da plataforma
O Airbnb afirma estar reconstruindo sua estrutura para se tornar uma empresa nativa em IA. As aplicações incluem a descoberta de informações nos anúncios e o suporte ao hóspede durante a viagem.
Em iniciativas consideradas estratégicas pela empresa, o intervalo entre a criação e a entrega de ferramentas caiu em até 60%. No segundo trimestre de 2026, o Airbnb registrou crescimento de quase 80% na quantidade de funcionalidades e melhorias entregues, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
A Edição de Maio de 2026 levou recursos de IA a diferentes etapas da viagem. Para os hóspedes, os modelos passaram a criar destaques a partir das descrições dos anúncios e das avaliações, reunindo informações sobre localização, comodidades e adequação para famílias.
A companhia também prevê lançar, ainda em 2026, comparações entre acomodações geradas por IA. A proposta é permitir que o hóspede analise espaços diferentes considerando os atributos mais importantes para cada busca.
O assistente de IA do Airbnb está disponível em mais de 50 idiomas. Segundo a empresa, cerca de 45% das solicitações iniciadas pela ferramenta são resolvidas sem a intervenção de uma pessoa. A próxima etapa prevista é a criação de um assistente de voz baseado em IA para o atendimento telefônico, também ainda em 2026.
Busca em linguagem natural pode reduzir etapas
Rafael Pinotti, diretor de Revenue Management da Welhome, avalia que a IA tende a encurtar o caminho entre uma necessidade e a escolha de uma hospedagem. Em vez de aplicar filtros e abrir anúncios individualmente, o viajante poderá explicar o que deseja e receber opções compatíveis com diferentes características.
A tecnologia já consegue executar algumas decisões recorrentes quando existem regras definidas, como descontos para baixa temporada ou condições de early check-in e late check-out. A negociação autônoma, porém, ainda depende de avanços. Os sistemas estão mais próximos de operar dentro de parâmetros previamente estabelecidos do que de avaliar, sem limites definidos, preço, política e condições de cada reserva.
Pinotti também aponta que ainda será necessário definir como funcionarão os anúncios pagos em ambientes de busca por IA. O Google pode recuperar espaço na descoberta ao interpretar a intenção do viajante e apresentar alternativas, mas sua participação no momento da transação dependerá da evolução dos produtos e modelos em desenvolvimento.
Para os operadores, a preparação passa por estrutura, dados e equipes capazes de transformar informações em decisões de negócio. A infraestrutura deve permitir automação e conexão com novos canais; os dados precisam sustentar a análise de desempenho e do comportamento do mercado; e os profissionais devem interpretar esses indicadores.
A negociação direta por agentes de IA ainda está em fase inicial, assim como os testes de novos modelos de distribuição. Mesmo assim, a preparação tecnológica já influencia a capacidade de uma hospedagem ser encontrada, recomendada e escolhida em uma jornada cada vez menos dependente da navegação tradicional por plataformas.








